Quando você pede ajuda a uma IA para programar, muitas vezes ela pula direto para o código pronto.
Isso é útil em tarefas diretas, mas perigoso quando você ainda está explorando a forma correta de modelar um problema.
Bahul Neel Upadhyaya propôs uma solução elegante: em vez de usar um único assistente, faça a IA argumentar consigo mesma.
O resultado é um protocolo chamado BASHES, que reúne seis vozes com filosofias distintas ao redor de um “quadro branco” virtual.
O objetivo não é apenas gerar uma resposta, mas provocar tensão produtiva que revele pressupostos, trocas e rupturas de linguagem.
O problema inicial que motivou a ideia é familiar a qualquer desenvolvedor: modelos convergem cedo para uma implementação, antes de explorar abstrações e trade-offs.
Para combater isso, Upadhyaya já usa um sistema de modos, mindsets e arquétipos para pedir ao modelo que pense antes de codificar.
Mas o BASHES é um passo além — é uma ferramenta on‑demand para quando a conversa precisa de debate real, não de uma única voz autoritária.
As seis vozes centrais são inspiradas em pensadores como Sussman, Hickey, Byrd, Steele, Alvaro e Escher.
Cada uma traz uma pergunta fundamental: “Que linguagem estamos deixando de construir?”, “O que estamos complectando?”, “Onde a linhagem temporal se rompe?” e por aí vai.
Ao identificar essas lentes, o protocolo força o modelo a explorar espaços de solução que o padrão de treinamento tenderia a ignorar.
Uma inovação chave é a separação entre conteúdo e procedimento: um Moderador controla o processo sem tomar partido no debate.
O Moderador conduz a fase de grounding, propõe restrições de valor e decide quando convergir ou chamar um desafiante designado.
A fase de grounding exige que cada persona resuma em uma frase o que entendeu do problema.
Esse passo expõe divergências de compreensão logo no início e evita que seis vozes discutam sobre coisas diferentes.
Se houver ambiguidades, cada persona pode fazer até duas perguntas de esclarecimento antes da rodada de debate começar.
Depois vem a definição de “value constraints”, que estabelece o quão profundo ou pragmático será o exame.
As opções vão de “minimal effort” a “follow the rabbit hole” e orientam o tipo de insight que o grupo deve buscar.
Em seguida o Moderador define a trajetória da sessão: invenção, ideação, exploração, diagnóstico, abstração, convergência, entre outras.
O protocolo organiza os participantes em 2 ou 3 cohorts que devem conter tensão interna proposital.
O objetivo é criar atrito dentro de cada grupo, não entre grupos afins, para forçar negociações verdadeiras.
Antes do posicionamento formal, é possível convocar testemunhas especialistas quando o grupo central não cobre um aspecto crítico.
Esses convidados reais entram com perfis explícitos e respondem perguntas durante uma fase de descoberta.
O debate procede em rodadas flexíveis: posição, rebuttal e refinamento/síntese, com limites para evitar desgaste improdutivo.
Cada síntese final precisa explicitar o que foi sacrificado — quais preocupações válidas foram trocadas e por quê.
O protocolo também prevê digests concisos de rodadas internas, para preservar a linha de pensamento sem inundar o leitor.
Na prática, BASHES é um comando que você invoca quando a conversa merece seis pessoas no quadro branco, não uma solução imediata.
Para tarefas de implementação rotineira, o modelo único em modos e mindsets continua sendo suficiente e eficiente.
BASHES entra em cena quando a conversa é sobre forma de abstração, primitives faltantes ou decisões arquiteturais fundamentais.
A grande lição é que pensamento produtivo é composto de fricção.
Insight verdadeiro muitas vezes nasce do atrito entre perspectivas incompatíveis, não do consenso confortável.
Se você quiser experimentar a ideia no seu fluxo de trabalho, comece simples: defina papéis claros, uma fase de grounding e um moderador neutro.
Identifique 2 a 3 eixos de tensão relevantes ao problema e force que cada grupo contenha posições que se opõem nesses eixos.
Se necessário, chame especialistas reais para cobrir lacunas de domínio em vez de confiar apenas nas vozes heurísticas.
Personalize a lista de convidados e as personas com pensadores que mudaram a sua forma de pensar.
O protocolo funciona com qualquer conjunto de vozes, desde que elas tragam perspectivas genuinamente diferentes.
No final das contas, BASHES é menos uma receita fixa e mais um roteiro para transformar a IA em um laboratório de ideias.
Para programadores e entusiastas, a promessa é clara: usar IA para descobrir problemas melhores, não apenas soluções mais rápidas.
Se quiser, experimente adaptar o fluxo no seu próximo design review e veja quais tensões aparecem na superfície.
O protocolo é aberto à experimentação: quebre, ajuste e faça seu próprio elenco de vozes para discutir seu código.