Quando se fala em exportações do Brasil, muita gente ainda pensa em commodities como soja ou carne.
Mas esse cenário está mudando, e um novo tipo de “produto” tem chamado a atenção de investidores internacionais: a propriedade intelectual.
Segundo a boutique de M&A Centria Partners, o Brasil vem se consolidando como um polo relevante na criação de tecnologia e ativos intangíveis que despertam interesse global.
“O Brasil é um hub de novos nomes, novas propriedades intelectuais que surgem a cada dia, a cada momento”, afirma Patrick Cannell, sócio e diretor-geral da empresa.
De acordo com ele, há um fluxo significativo de capital estrangeiro sendo direcionado ao país, tanto por empresas estratégicas quanto por fundos de investimento.
Um dado ajuda a dimensionar esse movimento: entre 60% e 65% das operações conduzidas pela boutique foram transações internacionais, envolvendo compradores de fora do Brasil.
Esse interesse crescente está diretamente ligado à valorização de ativos que não aparecem de forma tradicional nos balanços, como tecnologia, marcas e direitos autorais.
A lógica é simples: em vez de investir em estruturas físicas, muitos investidores preferem apostar em ativos que geram receita recorrente ao longo do tempo.
“Eles não estão comprando uma fábrica”, resume Cannell. “Isso traz um componente que é um ativo com fluxo de caixa recorrente, previsível e que vai se valorizar ao longo do tempo.”
Esse modelo já é bastante comum em setores como streaming e música, onde o valor está concentrado no conteúdo e nos direitos de exploração, e não na infraestrutura.
No Brasil, essa tendência ganha força impulsionada por um histórico de criatividade e inovação.
O país, que sempre se destacou pela produção cultural e pela capacidade de adaptação, começa agora a estruturar melhor esses ativos para atrair capital institucional.
“O Brasil tem muita criatividade, tem uma economia que muitas vezes surge do informal e vai para o formal”, explica o executivo.
Entre os setores mais promissores estão tecnologia, mídia e entretenimento.
No campo tecnológico, o Brasil já demonstrou que consegue criar soluções com alcance global, o que aumenta a confiança de investidores estrangeiros.
Já na área de conteúdo e entretenimento, o volume de novas propriedades intelectuais continua crescendo de forma consistente.
Outro fator que contribui para esse movimento é o próprio perfil da tecnologia, que costuma ser menos dependente das oscilações macroeconômicas.
“A tecnologia é mais agnóstica e não tão relacionada com o cenário macroeconômico, porque é uma solução que as pessoas precisam”, afirma Cannell.
No cenário de fusões e aquisições, a expectativa também é positiva.
A projeção é de que 2026 supere 2025, impulsionada por um melhor alinhamento entre o que os vendedores esperam e o que os compradores estão dispostos a pagar.
Além disso, o mercado passou a reconhecer melhor o valor de ativos intangíveis, como potencial de escala e capacidade de geração futura de receita.
Para capturar esse valor, a Centria aposta em uma abordagem mais próxima dos empreendedores.
A ideia é atuar como um “copiloto”, entrando no processo com antecedência para preparar a empresa para uma eventual venda.
Esse trabalho inclui desde a construção da tese de investimento até ajustes em governança, processos e estrutura organizacional.
O objetivo é reduzir a assimetria entre empreendedores e investidores institucionais, garantindo negociações mais equilibradas.
“A gente entende que tem muitas vezes uma disfunção clássica no modelo do mercado brasileiro, onde você tem um empreendedor genial, mas ele geralmente está sozinho na hora de negociar com capital institucional”, explica.
No fim das contas, o que sustenta esse modelo é o relacionamento.
Tanto com os clientes quanto com investidores, a construção de confiança é vista como essencial para identificar o melhor momento e estruturar as melhores operações.
Com isso, o Brasil vai se posicionando não apenas como exportador de produtos tradicionais, mas também como um importante fornecedor de inovação, tecnologia e propriedade intelectual para o mundo.